Conif capacita dirigentes para acolher vítimas e combater violência de gênero na Rede Federal

Publicado em 11 de Junho de 2026 às 16:22

Para discutir o tema com o Colegiado, foram reunidos nomes de referência na pauta de gênero: Carliane Carvalho, Procuradora Federal Chefe; e Valeska Zanello, psicóloga, professora e pesquisadora

Equipe diretiva do Conif (Foto Moacir Evangelista)
Equipe diretiva do Conif (Foto Moacir Evangelista)

O Conselho Nacional das Instituições da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica (Conif) promoveu, nesta semana, a Mesa Redonda de Enfrentamento à Violência de Gênero na Rede Federal de EPT. A atividade, realizada pela Presidência do Conif, teve como objetivo capacitar gestores da Rede Federal e fortalecer as ações de promoção da segurança nas instituições.

O encontro, transmitido via Zoom para gestores de todo o país, foi marcado pelo compromisso com o respeito, a equidade e a construção de ambientes mais acolhedores para meninas e mulheres. A iniciativa integrou a programação da 156ª Reunião Ordinária do Conif.

Matéria do Conif - Foto Moacir Evangelista - junho de 2026 - 1

Para a vice-presidente de Relações Institucionais do Conif e reitora do Instituto Federal de Brasília (IFB), Veruska Machado, os espaços de educação também devem assumir um papel ativo na prevenção e no enfrentamento das diversas formas de violência.

“Nós estamos diretamente na base, lidando com pessoas, com estudantes. Como as nossas instituições são microcosmos sociais, é muito natural que todos os preconceitos, todos os tipos de violência e assédio reverberem também nas nossas instituições. Muitas vezes o que a gente ouve é que ‘a escola não podia ser um local de violência’. Acontece que a escola não está numa redoma, ela faz parte da sociedade”, explica.

“E o que a gente precisa fazer dentro das nossas instituições é formar os dirigentes máximos para tentar combater essas violências no micro e, posteriormente no macro. Além disso, devemos ser intolerantes a qualquer tipo de violência que aconteça em nossas instituições”, completa.

A vice-presidente de Assuntos Acadêmicos do Conif e reitora do Instituto Federal de Roraima (IFRR), Nilra Jane, também comentou o assunto. Para ela, essa é uma pauta que “exige vigilância permanente e disposição para transformar estruturas e práticas”.

“Os avanços conquistados são importantes, mas ainda há um caminho a percorrer para que todas as meninas e mulheres da Rede Federal possam estudar, trabalhar e desenvolver plenamente seus projetos de vida. Precisamos avançar na consolidação de políticas institucionais permanentes voltadas à prevenção e ao enfrentamento da violência de gênero nos espaços acadêmicos. Isso passa pelo fortalecimento de canais seguros de denúncia, pela ampliação das ações educativas e formativas sobre respeito e equidade, pela oferta de acolhimento humanizado às vítimas e pela definição de fluxos claros para apuração e encaminhamento dos casos”, afirma.

Para discutir o tema com o Colegiado, foram reunidos nomes de referência na pauta de gênero: Carliane Carvalho, Procuradora Federal Chefe junto ao Instituto Federal do Paraná (IFPR) e integrante do Programa Nacional de Auxílio à Prevenção e de Combate ao Assédio Sexual nas autarquias e fundações públicas federais; Valeska Zanello, psicóloga, professora e pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB) e autora do livro “A Prateleira do Amor: sobre mulheres, homens e relações”; e Ana Magnólia, professora da UnB e coordenadora do Núcleo Trabalho, Psicanálise e Crítica Social – que participou em formato virtual.

Na ocasião, as especialistas apresentaram às reitoras e aos reitores conceitos sobre o tema e dados referentes às violações contra as mulheres. Além disso, orientaram sobre como identificar situações de violência e realizar o acolhimento adequado das vítimas. Ao final, os dirigentes tiveram a oportunidade de se manifestar e esclarecer dúvidas sobre o tema.

Após o momento de formação, a equipe de Comunicação do Conif entrevistou as duas especialistas presentes. Leia abaixo as entrevistas.

VALESKA ZANELLO

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Conif: A partir da psicologia e dos estudos de gênero, como você avalia os impactos da desigualdade de gênero dentro dos espaços educacionais?

Valeska Zanello: Os efeitos são inúmeros, principalmente a vulnerabilidade a sofrer os mais diversos tipos de violência. Eu considero um dos piores o assédio sexual, porque não apenas impacta a saúde mental como muitas vezes determina uma mudança de projeto de vida e, sobretudo, a renúncia ao fazer científico ou a uma profissão.  A gente precisa pensar em como combater de uma maneira efetiva o assédio, seja por normativa e por punição. Mas, sobretudo, pela educação, começando pela educação do professor. 

Conif: Em suas pesquisas, a violência de gênero surge de uma maneira silenciosa. Como as instituições da Rede Federal e universidades podem identificar esses sinais e atuar antes que se transforme em sofrimento às vítimas?

Valeska Zanello: Uma coisa que pode ser feita é a promoção do letramento de gênero: eventos de formação dos professores, palestras abertas para os técnicos, estudantes e professores, porque a gente só consegue identificar algo através do letramento. É preciso a nomeação, e nomear é importante, porque politiza o sofrimento. Eu percebo que aquilo que estou sofrendo não tem só a ver com a minha biografia, mas faz parte de uma história e de um coletivo. A resposta, portanto, não pode ser apenas individual, mas coletiva também.

Conif: Qual o papel do acolhimento institucional na prevenção de adoecimentos mentais relacionados a machismo, discriminação e violência de gênero em ambientes educacionais?

Valeska Zanello: O primeiro papel é estar atento e ter um acolhimento dessa mulher, que seja validada a fala dela. O que ocorre em muitos espaços de ensino é que a gente tem uma reprodução da casa dos homens. Então, os homens ainda ocupam espaços de poder e, geralmente, quando essa queixa sobe, é abafada, porque o homem se identifica com o assediador, por exemplo, e não com a vítima. A gente precisa democratizar esses espaços e ter algum tipo de fiscalização. Acolher, poder ter acompanhamento dessa mulher e, sobretudo, ter um tipo de intervenção que seja eficaz. Ou seja, que as vítimas não fiquem desamparadas.

CARLIANE CARVALHO

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Conif: Como os espaços educacionais podem se tornar mais acolhedores para meninas e mulheres, especialmente diante das desigualdades de gênero ainda presentes na sociedade?

Carliane Carvalho: Pensar em acolhimento para meninas e mulheres, em espaços institucionais, em espaços escolares, principalmente, a gente precisa considerar alguns elementos. Primeiro, quando falamos em acolhimento, a gente está falando em um ambiente seguro, em um ambiente em que tanto as meninas quanto as mulheres estejam satisfeitas e felizes em ir. Então, a gente tem que identificar eventual risco de segurança delas, eventual risco de violência, então a gente tem que detectar. Uma vez que a gente detecta que determinados espaços são espaços de violência, seja violência de gênero ou de qualquer outra natureza, a gente precisa capacitar.

A gente precisa trabalhar esse risco para que ele não venha a se tornar uma realidade. E, caso se torne uma realidade, a gente precisa punir os infratores que cometeram essa violência, que cometeram esse assédio, se for o caso. E mais do que isso, a gente precisa ter formado não só uma equipe de enfrentamento a essas violências quando elas acontecerem. A gente precisa de um tratamento prévio. Precisamos também realizar capacitações contínuas e de equipes qualificadas para receber as denúncias e acolher as vítimas, porque, muitas vezes, a pessoa que sofre determinada violência, ainda está vivendo as emoções e se sentindo até culpada por aquele sofrimento.

Conif: De que maneira a formação dos docentes e gestores contribui para identificar, acolher e encaminhar situações de discriminação ou violência de gênero dentro dos espaços de educação?

Carliane Carvalho: Quando a gente pensa em combate à discriminação e violência de gênero, pensar em capacitação é essencial. E a capacitação dos professores e servidores do ambiente escolar é o primeiro passo para que possamos identificar um eventual risco, uma eventual violência que já esteja acontecendo, e para que possam combater e prevenir por meio de falas, discursos, esclarecimentos e de palestras.

Com adolescentes, há a possibilidade de atuar de forma até mais lúdica: com teatros, jogos e vídeos, por exemplo. Existem diversas maneiras de a gente letrar, informar acerca da violência de gênero. E, quando a gente pensa nos jovens, a gente precisa adaptar não só a nossa linguagem, mas também os mecanismos. E, nesse contexto, a formação dos educadores é essencial. Não existe nenhum enfrentamento se as pessoas que estão nesse poder não tiverem consciência do que é efetivamente uma violência, de como prevenir ou de como acolher uma vítima.

Diretoria de Comunicação do Conif
Texto: Marina Oliveira/Conif
Foto: Moacir Evangelista/Conif

Replicado por Ascom/Reitoria do IFRR

11/6/2026

Matéria original disponível no link a seguir: https://portal.conif.org.br/comunicacao/gerais/conif-capacita-dirigentes-para-acolher-vitimas-e-combater-violencia-de-genero-na-rede-federal